Wednesday, March 07, 2007

«o improfanável?»


Agamben remata, com o lirismo habitual que herdou de Heidegger, uma afirmação que não pode deixar de ser célebre: «a profanação do improfanável é a tarefa politica da geração que vem» - Agamben esquece-se que a «profanação» faz parte da estrutura do sagrado, e que é um acto cúmplice que o reforça. Não se percebe onde é que Agamben quer chegar. Julgo tratar-se de um combate «contra» a pornografia como se esta fosse um limite vazio do profano. A pornografia é muito mais a imagem do que os heideggerianos chamam o Ser, do que um fantasma maldito ou um esvaziamento gnóstico. O Ser, ou outros substitutos adequados ou inadequados como Deus, os deuses, o brahman e outras tretas verbais são, enquanto experiência do dominio da porneia - são experiência-essência, como diz o termo sânscrito rasa. Raso vai sah. «O (absoluto) é sensação» (traduz Danielou). Mesmo quando é decepção. Mas a decepção, que na sexualidade é mais òbvia porque mais contrastante, resulta da imensa intensidade, não sei se profana ou sagrada... A nossa tarefa (o que vem, e o que se vem), e não a das gerações futuras (as que messianicamente hão-de vir não vindo nem deixando de (se) vir), é apenas o aprofundamento de uma pornoecologia - mais e melhor rasa.

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